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Archive for 14 de junho de 2009

Artigo publicado na Revista Espírito Livre nº 3 (julho/2009), na integra.

Formação de professores para o uso das tecnologias livres : caminhos a se trilhar…

Este mês, nosso artigo mensal terá um caráter mais filosófico do que propriamente prático, pois pretende abordar a formação inicial do professor para o uso das novas tecnologias na educação, com ênfase no software livre. Recentemente, fui convidada a dar uma palestra em uma renomada universidade local, na disciplina de Informática Educativa para alunos de cursos superiores em Pedagogia e Ciência da Computação. Foi algo bem informal, um momento de troca de conhecimento, um debate gostoso sobre o software livre e suas implicações na escola.

Todavia, minha alma de pesquisadora, levou a querer investigar com mais profundidade a formação docente no que diz respeito à utilização dos recursos tecnológicos oferecidos hoje nos laboratórios de informática das escolas, ao observar que a maioria dos alunos, principalmente do curso de Pedagogia, embora estudassem em um centro de excelência em educação e em difusão de tecnologias digitais, nunca tinham ouvido falar do software livre, nem tão pouco suas aplicações na educação. Este fato, me deixou bastante intrigada, e resolvi a própria sorte, pesquisar, sem um rigor estatístico, a presença ou ausência da disciplina Informática Educativa (ou similar) nos currículos dos cursos de formação de professores, utilizando apenas as ferramentas de comunicação da web. Devido as limitações temporais, pesquisei apenas em 23 Instituições de Ensino Superior (IES), dando prioridade aos cursos de Pedagogia, Matemática e Letras. Para meu desalento e tristeza, constatei que um pouco mais de 10% das faculdades pesquisadas, apenas 3 possuem em sua grade curricular oficial como disciplina obrigatória, a Informática Educativa ou afins. Por questões éticas, não citarei o nome das faculdades pesquisadas, mas posso afirmar que a maioria dos IES, que possuem a preocupação em inserir a tecnologia digital nos cursos de formação de professores, estavam no eixo Sul-Sudeste, notadamente nos cursos de Pedagogia. O mais grave é que nos cursos de Matemática não encontrei nenhuma faculdade e no curso de Letras apenas uma universidade pública, abordava o software livre na disciplina de Fonética.

É importante ressaltar que a amostra foi pequena, e que portanto, não se pode generalizar. Ademais, a maioria das instituições de ensino superior, oferecia Informática Educativa, ou como disciplina optativa do curso de Pedagogia, portanto o aluno poderia terminar o curso sem cursar a mesma, ou como complementação acadêmica, ou seja, na forma de cursos de especialização “latu sensu”, depois da graduação, não atingindo portanto, o grande contingente de professores que são formados a cada ano. O que significa que muitos docentes irão assumir as salas de aulas brasileiras, sem nunca ouvir falar do uso do computador na educação e muito menos no software livre em sua formação inicial. Na perspectiva da formação de professores, é imprescindível se pensar na escolha do software a ser utilizado. Uma vez que, esta em jogo é a questão da cooperação e da colaboração em ambiente educativos, não há porque incentivar o uso de software proprietário na escolas, rompendo assim com a perspectiva de consumo e de dependência tecnocultural americana. Todavia, o que se observa, na prática é o contrário. Com raras exceções, poucos são os professores “afortunados” que dispõem de tempo e recursos financeiros para se capacitar no uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) e assim incorporar as tecnologias digitais à sua prática. Os poucos que conseguem conciliar trabalho e formação, o fazem, em cursos profissionalizantes, ficando limitados a plataformas proprietárias e tem muita dificuldade ao utilizar os Laboratórios de Informática Educativa (LIES), que adotam o software livre como padrão. O governo bem que se esforça. É notório que as três instâncias de poder vem adotando em suas políticas públicas de inclusão sócio-digital, o software livre, por questões técnicas, orçamentárias e filosóficas. Fortaleza, por exemplo, tem presenciado, uma expansão generalizada dos LIES – Laboratórios de Informática Educativa nas escolas públicas municipais, graças a economia gerada pela adoção do software livre. De 9 LIEs em 2000, o parque tecnológico educativo saltou para 203 em 2009, o que representa um crescimento de 1.127% em termos percentuais em menos de uma década. O Ministério da Educação, por exemplo, não autoriza mais a inauguração de escolas, sem o laboratório de informática educativa e biblioteca. Mesmo as escolas mais antigas, estão reformando seus prédios, para se adequar a esta nova realidade. Os novos LIES são orientados a utilizar o software livre como padrão. Será que a universidade é a única que não percebe isso?

É a educação brasileira andando na contramão do desenvolvimento. Enquanto a maioria das instituições, vê a informatização como uma necessidade vital, do mercadinho do vizinho, passando por bancos, hospitais, locadoras, farmácias, lojas enfim, a escola continua paralisada no tempo e no espaço descompromissada com as novas tecnologias digitais. O professor do século XXI, continua dando aula da mesma forma que seus colegas nos tempos coloniais, usando apenas o giz, o quadro negro e quando muito o livro didático. Alguns mais moderninhos tem acesso a um pincel, um quadro branco, um DVD, mas continuam presos a metodologia aprendida com os jesuítas, ou seja, fazendo uso da retórica, da memorização do conteúdos, de avaliações punitivas, privilegiando a cultura branca, européia, heterossexual, e a submissão das classes classes trabalhadoras, perpetuando o sistema social dominante.

Este fato, me faz lembrar a parábola surreal proposta por Parpert (1993). Professores e cirurgiões do século XIX, teriam a chance de entrar numa “máquina do tempo” e poderiam viajar no tempo e no espaço para o futuro. Aqui chegando, tais cirurgiões ficariam extasiados com as mudanças tecnológicas, sem compreender a finalidade da maioria das luzes e bipes dos instrumentos utilizados pelos médicos contemporâneos. Já os professores, reagiriam de forma diferente, não encontrariam nada de irreconhecível na escola contemporânea, até poderiam questionar os trajes escolares ou organização das turmas, mas poderiam facilmente, assumir a turma sem maior dificuldade. Tal parábola, bastante realista, demonstra que a escola é um dos poucos campos de atuação humana que pouco ou quase nada mudaram. Utilizando o mesmo exemplo, se tais professores, viajantes do tempo, fossem visitar a casa dos alunos, voltariam assombrados com tantas “novidades” e principalmente com a vivacidade e com o esforço dos alunos em aprender a manusear celulares, videogames, dvs, computadores…

De fato, na atualidade, nossos alunos têm mais fontes de informações ao alcance do mouse, do que qualquer adulto poderia sonhar ter em toda sua vida escolar. Entretanto, estes alunos necessitam do auxílio dos seus professores para aprender a interpretar a enorme quantidade de informações que recebem; ao mesmo tempo os professores precisam de capacitação para dominar as ferramentas computacionais de ensino, que muitas vezes são melhor dominadas pelos seus alunos. O Governo Federal incentiva a criação de laboratórios educativos com software livre, mas deixa a desejar no critério acompanhamento dos resultados. Os NTEs – Núcleos de Tecnologia Educacional, que deveriam ser núcleo de excelência, ainda engatinham no uso das tecnologias livres. O resultado é simples, o desconhecimento, para a maioria dos docentes, dos softwares livres educativos que poderiam ser incorporados a prática educativa. Daí a necessidade de uma maior aproximação entre as universidades que formam professores e os movimentos de divulgação do software livre.

A filosofia do Software Livre é baseada segundo Silveira (2003 p. 45) é “no princípio do compartilhamento do conhecimento e na solidariedade praticada pela inteligência coletiva conectada na rede mundial de computadores”. Portanto, tem suas raízes na manifestação da cultura de rede, na liberdade de compartilhamento, portanto, coerente com a livre disseminação do conhecimento e da informação, tão comuns no meio acadêmico. Além do que, a filosofia de liberdade e compartilhamento de conhecimento promovido pelo software livre vai ao encontro com o que determina a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, uma espécie de “Carta Magna” da Educação Brasileira, ao enfatizar em seu art. 2º: A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. (grifo nosso).

Silveira (2003) acredita que o emprego de software livre na educação é uma alternativa imprescindível a qualquer projeto educacional, tanto no setor público como privado. Fatores tais como cooperação, liberdade, custo e flexibilidade são estratégicos para a condução bem-sucedida de projetos educacionais mediados por computador. O software livre tem como ética e princípio compartilhar o seu conhecimento e garantir aos usuários a liberdade de conhecer, na íntegra, o conteúdo do código-fonte dos programas utilizados. Além de garantir maior segurança, privacidade e redução de custos, essa opção aposta no livre desenvolvimento da ciência e da tecnologia, sem as barreiras das licenças proprietárias. Para o autor, as opções proprietárias fortaleceriam monopólios, gerando vantagens políticas/econômicas aos dominadores da tecnologia, além de royalties a países ricos. Além disso, as soluções livres utilizadas em projetos de inclusão social gerariam novos empregos e desenvolvimento interno, podendo levar o país à independência tecnológica e à possibilidade de competir no mercado externo.

Na perspectiva do ensino público, muitas vezes carente de recursos, o software livre é a uma alternativa viável e representa a única possibilidade de inclusão digital de professores e alunos. Embora, tenha crescido o interesse das comunidades de programadores acerca do uso educativo do software livre, um exemplo disso são as distribuições Edubuntu, Kelix, Pandorga, Linux Educacional, Ekaaty, versões customizadas da GNU/Linux de cunho eminentemente educativo, todos já traduzidos para língua materna, todavia, são poucos os estudos científicos que se debruçam sobre a tríade: informática educativa, formação de professores e software livre. Numa pesquisa rápida ao banco de dados Scielo (www.scielo.org), biblioteca virtual que abrange uma coleção de periódicos científicos, utilizando as tags, software livre e educação, em língua nacional, dentre os mais de 220.000 artigos catalogados, apenas 4 (você não leu errado!), apenas 4 se referiram ao uso do software livre na educação, o que demonstra o longo caminho que ainda temos a trilhar…

Daí a importância de projetos como o SL Educacional (sleducacional.org) que se propõe a organizar documentação e traduzir softwares livres que possam ser utilizados na área educacional. O sítio do projeto funciona nos moldes de uma rede social. Nele é possível encontrar diversos grupos de trabalho, blogs, material de apoio e páginas dos integrantes do projeto além de diversos arquivos à disposição para serem baixados gratuitamente. O projeto é voluntário e está aberto a todos aqueles que desejam modificar a realidade da educação brasileira por meio do software livre.

Outra iniciativa importante é o Texto Livre (www.textolivre.org/), um grupo de suporte à documentação em Software Livre na área de Linguagem. Os voluntários, alunos de graduação em Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, realizam tarefas de tradução e revisão solicitadas pelas comunidades de software livre refletindo sobre esse processo em sua formação docente. Este ano, o projeto Texto Livre está concorrendo ao 4º SourceForge.net Community Choice Awards na categoria Best Project for Academia. Não deixem de votar e apoiar este projeto. O link para a votação é http://sourceforge.net/projects/textolivre.

Na formação docente, Nunes (2008) e sua equipe tem se dedicado a estudar os efeitos da adoção de software livres em instituições educacionais. A frente do LATES – Laboratório de Tecnologia Educacional e Software Livre (www.lates.ced.uece.br), juntamente com os alunos do curso de Mestrado em Educação da Universidade Estadual do Ceará, tem promovido esta discussão dentro da academia e alerta “o software livre constitui-se além de uma economia de gastos, um instrumento de melhoria do desempenho discente e docente”. Apesar de louvável todas estas experiências, ainda são incipientes e isoladas. Reitera-se, aqui a necessidade de mais estudos que atestem os aspectos qualitativos e quantitativos da aceitação, usabilidade, adequação e adaptação de SL à realidade de milhares de escolas em todo o território nacional, contribuindo desta forma para o aprimoramento e a ampliação do seu uso. E você educador ou entusiasta do movimento e da filosofia livre, o que está esperando para entrar neste exército ?

Referências

NUNES, J.B.C et al. (2008). Levantamento de Softwares Educativos Livres. In: XIV Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino, Porto Alegre.

SILVEIRA, S. A.(2003.). Software Livre e Inclusão Digital. São Paulo: Conrad Editora do Brasil.

Parpert, S. (1994) A máquina das crianças: repensando a escola na era da Informática; São Paulo: Artes Médicas.

Como referenciar: ROCHA, SSD. Formação de professores para o uso das tecnologias livres : caminhos a se trilhar…Revista Espírito Livre. ano I, n.3, v. 1, 2009. Disponivel em< http://www.revista.espiritolivre.org/&gt; Acesso em: DD/MM/AA.

PAPERT, Seymour. A máquina das crianças: repensando a escola na era da informática. Porto
Alegre, Artes Médicas, 1994
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